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01.09.2010

Coluna de José Juvêncio de Almeida Filho

POUCO FUTEBOL E MUITA LAMBANÇA NA COPA DA ÁFRICA

Corinthians vai construir estádio para sediar abertura da Copa de 2014.
Corinthians vai construir estádio para sediar abertura da Copa de 2014.

A paixão pública e notória pelo Fluminense do Rio de Janeiro, único time para o qual consigo torcer assumida e fervorosamente, a par da sazonal unanimidade que se forma em torno da Seleção Brasileira, sempre despertaram em mim um desejo não realizado de comentar futebol. Curiosamente, oportunidade e espaço nunca me faltaram. No fim da década de 50 e início dos anos 60, quando fazia parte da redação do jornal A UNIÃO, ensaiei, por mais de uma vez, uma abordagem aos venerandos jornalistas Elias Bernardes e Normando Filgueiras, editores de esporte, com vistas ao meu deslocamento para o setor deles, pretensão do desagrado da Chefia de Redação que preferia me manter no noticiário nacional/internacional, além de fazer, de vez em quando, coberturas de eventos, em sua maioria de natureza política.

Passados mais de 50 anos daquela frustrada aspiração juvenil e ainda no rescaldo da Copa do Mundo de 2010, realizada na África, decidi escrever sobre a competição esportiva recém-finda que a tecnologia levou a bilhões de telespectadores em todo o planeta, externando a minha modesta opinião sobre alguns dos seus mais controvertidos aspectos.

Nível técnico, arbitragem e lambanças - Quando a primeira Copa do Mundo do pós-guerra foi realizada no Brasil, em 1950, eu tinha 13 anos, idade suficiente para avaliar e reconhecer a excepcional qualidade técnica de jogadores como Danilo Alvim, Zizinho, Ademir, Jair e sofrer intensamente, como a maioria dos brasileiros, com o maracanaço que os uruguaios nos impuseram. Lembro, inclusive, que após o jogo do fatídico dia 16 de julho, um vizinho nosso, de nome Aluísio, sofreu um enfarte e morreu.   

Desde então, foram realizados mais 15 Campeonatos Mundiais, com variações de continentes e países sedes, tendo eu acompanhado a todos com tanto  interesse e denodo na busca de informações que ouso me julgar em condições de classificar o recém findo na África do Sul como o que apresentou jogos de mais baixo índice técnico, pior nível de arbitragem e maior riqueza de lambanças, comparável somente ao de 2006, na Alemanha, considerada a Copa da retranca e da indisciplina. A incompetência da maioria dos treinadores ficou flagrante na falta de aproveitamento do talento inegável de alguns jogadores que participaram da competição, resultando na eliminação precoce  de países tidos como maiores potências no ranking mundial. No capítulo das lambanças, erros inconcebíveis para quem ostenta o status de árbitro da FIFA tiveram influência decisiva no resultado de alguns jogos e goleiros internacionalmente conhecidos cercaram frangos incríveis. Como se não bastasse, tentaram nos engabelar com a armação do polvo adivinho na cidade alemã de Oberhausen e, para coroar tudo, fomos brindados com uma inusitada degustação televisiva de catôta, proporcionada pelo técnico do mesmo país. Escapamos, felizmente, do tragicômico espetáculo de Maradona pelado, nas avenidas de Buenos Aires, exibindo todo o seu charme de anão de circo, caso a Argentina fosse campeã.

Dunga, o técnico que não é técnico - A definição não é minha e sim de Martinho Moreira Franco, um dos meus cronistas prediletos, a quem peço permissão para utilizá-la.  A falta de preparo para o exercício da função, denunciada por muitos a partir da escolha de Dunga para técnico da Seleção, foi atenuada por outros tantos, embevecidos com os primeiros resultados mas sem atentarem para o fato de que se classificar em torneio eliminatório para uma Copa do Mundo, com a quantidade e qualidade de craques que dispomos não chega a ser nenhuma façanha e que títulos menores como campeão das Copas América e das Confederações não têm o mesmo significado e peso da Taça Olímpica que continua nos faltando e da Copa do Mundo que perdemos bisonhamente. Selecionar é, por definição e em qualquer dicionário, escolher os melhores. Utilizar critérios de simpatia, amizade ou apenas confiabilidade não é escolher, é formar patota. Como conseqüência vimos que restando ainda 20 minutos para o término do jogo que nos eliminou e com a faculdade de uma última substituição, o nosso treinador não a utilizou porque não tinha no banco uma única alternativa de mudança de estratégia.

Alegria, Alegria - Antes que algum ocasional leitor vislumbre  algum indício de azedume, rancor ou intolerância nas minhas considerações sobre a Copa, apresso-me em dar o merecido destaque ao que houve de sublime e grandioso no transcurso do evento. Quem se compraz com a felicidade do próximo, notadamente dos menos afortunados, não pode ter deixado de se comover com a incontida explosão de alegria que tomou conta do sofrido povo africano durante cerca de um mês de cantos, danças e com a apoteótica ovação tributada ao grande líder da luta contra a segregação racial, Nelson Rolihlahla Mandela, personagem reverenciado universalmente e idolatrado pelo seu povo que o trata pela afetuosa denominação de Mandiba.  

O lado cultural da Copa - Evidentemente a difusão  da cultura não figura como um dos objetivos imediatos de uma competição como a Copa do Mundo. Mas, por força de se tornar o foco das atenções gerais, monopolizando quase todo o espaço e tempo dos meios de comunicação, sempre resta, ao seu final, um saldo, mínimo que seja, de conhecimentos. Na Geografia, por exemplo, nem todos sabiam que Johannesburgo é a Capital econômica da África do Sul. Alguns iam mais além, já tendo ouvido falar na Cidade do Cabo. Hoje, a quase totalidade dos condutos auditivos nacionais está familiarizada com nomes de cidades como Bloemfontein, Durban, Port Elizabeth, Pretória e a intimidade, patrocinada pela TV, com o proletário bairro de Soweto faz com que ele pareça até um dos nossos subúrbios. O léxico, por sua vez, também ficou enriquecido com a introdução de vocábulos como jabulani, vuvuzela, bafana-bafana e por aí vai.

A próxima Copa e o destino dos equipamentos - A próxima Copa do Mundo será realizada no Brasil, como todos sabem. Há muita nebulosidade envolvendo o processo de escolha do nosso País como sede do evento. Falam de coisas sérias e comprometedoras, como a conquista do Mundial de 1998, pela França, ter servido de moeda de troco para o evento ser aqui, em 2014, o que já seria um péssimo começo.  Logo após o apito final lá na África, em plena solenidade de encerramento, o Brasil já estava iniciando, de fato e de direito, os preparativos para  2014. Vendo todo aquele auê fiquei a meditar sobre como poderia haver falhas na realização de um certame  planejado com tanta antecedência, obedecendo a uma pesada cartilha de exigências da FIFA, rigoroso calendário e exigindo para o desenvolvimento da necessária infra-estrutura (malha rodoviária, estádios, hotéis e aeroportos) recursos num montante inimaginável, porque daqui a 4 anos um orçamento atual certamente já haverá duplicado ou triplicado.  Não precisa ser o polvo profeta Paul para antever os justificáveis temores e a celeuma que se estabelecerão em torno das aplicações desses recursos. A construção de novos e a melhoria dos atuais hotéis, aeroportos e estradas, contribuirão, evidentemente, para o incremento  das atividades  econômicas em geral, beneficiando particularmente o turismo. Mas, tanto aqui como na África, qual será o destino dos estádios, construídos a peso de ouro para 90 minutos por jogo realizado, no máximo, duas vezes por semana? Ou será que há previsão de sua utilização, durante os consideráveis períodos de ociosidade, em atividades sociais, culturais, comerciais, ou outras geradas a partir do inquestionável espírito criativo do brasileiro? Se isso já constitui motivo de preocupação, paira sobre nós um temor ainda maior. Em verdade, nem chega a ser temor, mas a certeza de que, com tanta grana rolando por aí, determinados e facilmente identificáveis figurões da República não perderão a oportunidade de jogar mais carradas de lama sobre suas já emporcalhadas fichas.


 


 

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